Médico de Família e Comunidade: importância desse profissional

Equipe ViBe Saúde Home, Saúde

 

Assim como ocorre em outros países, o Brasil passa atualmente por uma revisão dos modelos de prestação de serviços de saúde. O aumento dos custos dos planos de saúde – com os respectivos impactos aos usuários – o avanço acelerado de novas tecnologias, o envelhecimento da população e a limitação de recursos financeiros estão entre os principais fatores elencados para o atual redimensionamento das estratégias de saúde.

Mas onde entra o médico de família e comunidade neste cenário?

Diante da atual conjuntura, urge um maior investimento em atenção primária à saúde, especialmente em educação, promoção da saúde e prevenção de doenças e agravos. Elemento de extrema importância nesta estratégia é a Medicina de Família e Comunidade (MFC), uma especialidade médica que presta assistência à saúde de forma contínua, integral e abrangente.

A MFC é uma especialidade que busca resgatar uma medicina de base, onde o paciente é visto como um indivíduo singular, mas sempre considerando o contexto familiar e a comunidade na qual o mesmo está inserido.

O especialista em Medicina de Família e Comunidade atende pessoas de todas as idades, prestando assistência de maneira permanente e contínua, acompanhando o indivíduo e a família ao longo da vida. Apesar de o enfoque maior residir na prevenção e promoção da saúde, não há negligência no tratamento e na reabilitação das pessoas já enfermas. Para se ter uma ideia da importância dessa especialidade para a saúde pública, uma equipe de saúde da família bem formada resolve de 75% a 85% dos problemas reportados pela comunidade.

Telemedicina e o Médico de Família e Comunidade (MFC)

A pandemia, atualmente vigente, impulsionou sobremaneira a assistência à saúde via ferramentas tecnológicas. A chamada telemedicina, outrora uma possibilidade futura, tornou-se protagonista no acesso ao atendimento médico diante do atual cenário que enfrentamos. No entanto, a tecnologia, que encurta as distâncias, também impede a presença e o toque, essenciais para as etapas propedêuticas e para a criação de vínculos.

Sem profissionais que prestem atendimento humanizado e que sejam sensíveis aos aspectos psicossociais para definir as condutas, a videochamada deixa de ser um meio de atendimento e passa a ser um empecilho para as boas práticas de saúde.

A despeito do enorme desafio, a prática da telemedicina tem sido enriquecedora tanto para os profissionais quanto para os usuários. A segurança do atendimento no conforto de seus lares e o acolhimento humanizado à um click, são alguns dos fatores destacados pelos usuários, que parecem aprovar a telemedicina.  Cabe ressaltar, sempre, que de modo algum o atendimento a distância anula a primazia do atendimento presencial. Por outro lado, a dificuldade imposta por nossa época nos obriga a buscar saídas e novas possibilidades; e a telemedicina insinua-se como uma grande mudança paradigmática, inclusive para o período pós-pandêmico vindouro.

As críticas à telemedicina ainda são inúmeras; mas o fato é que o atendimento virtual atende a muitos princípios e diretrizes da atenção básica, apesar de suas limitações. Destaco aqui a ampliação do acesso à saúde, integralidade do cuidado, cuidado centrado na pessoa, longitudinalidade, coordenação do cuidado e resolutividade.

Do ponto de vista econômico, a telemedicina tem impacto significativo na redução de sinistralidade na saúde suplementar e tem grande potencial para diminuir os conhecidos abismos do Sistema Universal de Saúde (SUS).

 

Características da Medicina de Família e Comunidade

Para exercer essa especialidade, o médico deve possuir uma visão holística, considerando sempre os múltiplos contextos: biológico, psicológico e social, bem como suas interações. O médico de família deve também realizar a continuidade da atenção mesmo quando a pessoa precisa ser cuidada por outros profissionais, idealmente mantendo contato e coordenando as atividades dos mesmos para a obtenção de melhores resultados.

Veja as principais vantagens de um Médico de Família e Comunidade:

1 – Responsável pelo primeiro contato com o Sistema de Saúde

O primeiro atendimento, quando ocorre por um profissional capacitado, torna-se uma porta de entrada que resolve e/ou direciona o usuário todas as vezes que existe a necessidade de resolver um novo problema de saúde, independente da idade, gênero ou doença;

 

2 – Disponibilidade para um segundo contato: referência interna

Em equipes de saúde multi e transdisciplinares, a Medicina de Família e Comunidade pode funcionar como especialidade de interconsulta (referência interna) para orientações no manejo de problemas de saúde referenciados por outros integrantes de equipe, como por exemplo: paciente atendido por nutricionista que é referido ao medico de família e comunidade para ser orientado a respeito de algum problema de saúde que foge do controle por parte daquele (nutricionista, no caso).

 

3 – Garantia de acesso, continuidade e longitudinalidade

A prática da medicina de família e comunidade considera fundamental o adequado acesso ao cuidado de acordo com as condições social, organizativa e geográfica. Deve oferecer cuidados em todas as etapas do ciclo vital, possibilitando que eles sejam realizados pelo mesmo médico de família e comunidade ao longo de toda a vida do paciente, mesmo quando este precisa referenciá-lo para outro nível de atenção;

 

4 – Priorização na relação médico/paciente

A relação médico e paciente é um ato médico essencial para o cuidado integral do paciente. Na MFC, a justa e cultivada relação é prioridade, e ajuda, nesse sentido no entendimento do “todo” (biopsicossocial) e na construção de vínculos;

 

5 – Enfoque na gestão de recursos disponíveis

Entre tantas competências do MFC, gerenciar recursos disponíveis, com racionalidade e eficiência, gerenciar a necessidade de acesso aos níveis secundários e terciários (interconsulta ou referência), merecem destaque por gerar grande impacto na saúde do paciente e no sistema de saúde adotado;

6 – Atendimento modelo centrado na pessoa

A Medicina de Família e Comunidade se norteia por um modelo centrado na pessoa, contextualizada em sua família e comunidade, o que implica que o médico é capacitado para desenvolver atitudes e habilidades comunicativas, assim como ter a capacidade de entender e lidar com as relações interpessoais;

7 – Individualização na tomada de decisões

No exercício da MFC, decisões devem ser tomadas em relação às características individuais, familiares e contextuais dos pacientes, como por exemplo, considerar a incidência e a prevalência de problemas nessa comunidade, além da disponibilidade do acesso – neste sentido, considerar a tecnologia adequada para o cuidado da pessoa, com critérios éticos e de custo–eficácia, melhorando assim o tipo de atenção prestada;

8 – Caracterização dos problemas de saúde

A prática desta medicina busca cuidar dos pacientes baseado em um enfoque de risco, o qual contribui para a identificação da probabilidade de que certas características dos indivíduos e do meio que lhe rodeiam produzam em conjunto uma enfermidade;

9 – Dimensionamento do problema antes de definir a melhor abordagem

A Medicina de Família e Comunidade aborda os problemas de saúde de maneira integral, envolvendo de maneira dinâmica as esferas biológica, psicológica, social e espiritual dos mesmos e considerando todos estes aspectos ao eleger uma conduta;

10 – Destreza em desenvolver trabalho em equipe

A atenção à saúde não é oferecida somente por um indivíduo; é inerente à Medicina de Família e Comunidade uma orientação de trabalho articulado em equipe multidisciplinar, com características de inter ou transdisciplinaridade para oferecer e melhorar a atenção para uma população identificada;

11 – Atuação em diferentes níveis de atenção

Além de coordenar o cuidado entres os níveis de atenção a saúde, a Medicina de Família e Comunidade atua ativamente nos níveis de atenção primária e quartenária, realizando promoção da saúde e prevenção de doenças, além de agir na identificação de pessoa ou população em risco de supermedicalização, visando a proteção de uma intervenção médica inapropriada e sugerindo procedimentos científica e eticamente aceitáveis.

 

Os Médicos de Família e Comunidade são especialistas com inúmeras competências, como já citadas, e com um grande diferencial: vontade de fazer sempre o melhor, apesar das adversidades. O mercado e a população só têm a ganhar ao valorizá-los.

*Escrito por Dra. Fernanda B. C. Monteiro. Médica de Família e Comunidade e atua na ViBe Saúde.

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